NOTAS SOBRE UM VELHO SAFADO


UMA CASA DE PRAIA, UM LIVRO MOFADO E COMO ME ENCANTEI POR UM ROMÂNTICO DECADENTE...

Definitivamente sou novo no blog, mas não acho que caiba eu me apresentar. Ao invés disso, vou falar um pouco sobre o homem que me fez apreciar poesia, querer escrever e principalmente mostrou que qualquer um poderia fazê-lo.

Não, não vai ser uma introdução biográfica, falando aonde Charles Bukowski nasceu, sua infância ou de seus relacionamentos. Vai ser basicamente o que me der na telha enquanto eu encaro meu teclado e esse bloco de notas virtual pois, como o próprio Bukowski disse sobre escrever: "Não tente".

A primeira coisa que li do velho safado foi "Misto-Quente", uma de suas seis novelas. Fiquei impressionado com a mistura de ficção com auto-biografia, a forma de se expressar desbocada e ao mesmo tempo apaixonada.  A frase mais marcante para mim foi: "Que tempos difíceis eram aqueles: ter a vontade e a necessidade de viver, mas não a habilidade."

Terminei esse livro em Dezembro de 2012, perto da virada do ano, na casa de praia de uma amiga que já não conheço mais. Certamente fui fisgado ali. Desde então, venho procurado em sebos virtuais e físicos por mais obras dele. Cada uma delas me encantou à sua maneira, seja na melancolia trágica de " A Mulher Mais Linda da Cidade ", no absurdo hilariante que é " A Máquina de Foder " até a experiência revoltante e nauseante que é ler " O Diabo em Figura de Gente ". Esses citados foram contos, todos compilados e publicados no Brasil no livro " Crônica de Um Amor Louco ", primeiro livro da obra " Ereções, Ejaculações e Exibicionismos ".

Mas nem só de obscenidades vivia o velho. Poucos poemas já me emocionaram a ponto de derramar lágrimas e, a maioria destes foi escrita por Bukowski. Algumas de minhas recomendações são "O Pássaro Azul", "Quatro e Meia da Manhã", "Poema Nos Meus 43 Anos" e é melhor parar por aqui, antes que eu recomende cada uma de suas obras que, infelizmente, não foram todas traduzidas ao português. Bukowski foi um autor cru, sem intrução acadêmica, um romântico que tentava esconder seu coração atrás de uma parede de cinismo e que escrevia sobre o que observara no mundo, vida e nas pessoas. Vou fechar esse texto com dois poemas, ambos sobre a mesma mulher.

Ruiva de Cima à Baixo

cabelos ruivos
legítimos
ela os põe em movimento
e pergunta
“meu rabo continua gostoso?”
que comédia.
há sempre uma mulher
pra salvar você de outra
e assim que ela o salva
está pronta para
destruí-lo.
“às vezes eu odeio você”,
ela disse.
afastou-se e foi se sentar
na minha varanda para ler meu exemplar
do Catulo, e ficou
por lá cerca de uma hora
as pessoas passavam de lá para cá
em frente à minha casa
se perguntando como um
cara tão velho e feio podia arranjar
uma beldade daquelas
nem eu sabia.
assim que ela entrou eu a puxei
para o meu colo.
ergui meu copo e lhe
disse, “beba isso”.
“oh”, ela disse, “você misturou
vinho com Jim Beam, logo vai ficar
safado”.
“você passa hena nos cabelos,
não?”
“você não enxerga nada”, ela disse e
se levantou e baixou
suas calças e a calcinha e
os pelos lá embaixo tinham
a mesma cor dos cabelos
lá em cima.
o próprio Catulo não poderia ter desejado
graça mais histórica ou
magnífica;
depois ele se
enamorou de
rapazolas
insuficientemente loucos
para se tornar
mulheres
 Melancolia

A história da melancolia inclui todos nós. Eu escrevo em lençóis sujos
enquanto olho para paredes azuis e nada, eu já me acostumei tanto com a melancolia que eu a recebo como uma velha amiga. Eu terei agora 15 minutos de aflição pela ruiva perdida,
eu faço isso e me sinto bastante mal bastante triste então então eu levanto limpo apesar de que nada está resolvido, isso é o que eu ganho por chutar a religião na bunda.
eu deveria ter chutado a ruiva na bunda onde o cérebro e o pão e a manteiga dela estão
mas não, eu me senti triste por tudo: a ruiva perdida foi apenas outro rompimento em uma vida de perdas eu ouço a bateria no rádio agora e sorriu, há alguma coisa errada comigo além da melancolia.

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